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:: 3/8/2007 ::
Interrompemos a ausência do nosso patrocinador para um momento de nostalgia e reflexão...
Finge que ainda não voltei do Marrocos. Finge que ainda estou nas terras de Nazira, solto no vento, com os cabelos à mostra na Medina, e todo mundo achando que eu estou levando uma vida de grão-vizir enquanto na verdade eu estou passando mal porque comi uma pastilla, que vou descrever em detalhes supremos e detalhados que vão deixar Jamie Oliver com os cabelos do suvaco em pé, estou desesperado carregando uma panela de cuscús (cous cous é o cacete) de barro, uma não, duas, e aquilo pesa pra cacete, num calor da porra que ao passar numa sombra de árvore vira 10 graus. Finge que ninguém sabe que eu estou dividindo um compartimento com 4 pessoas fumando haxixe num trem noturno de Fez a Marrakesh (9 horas)... e eu nem sei pedir um tapa em árabe. Finge que ninguém sabe que eu estou sobrevivendo a uma explosão de merda literal, com os esgotos de Fez explodindo dentro da Medina durante um temporal, no maior estilo Glória Maria em início de carreira no Plantão do Globo Cidade, com aquelas notícias que marcaram minha infância do tipo "aqui em a situação está caótica. Com a chuva, se abriu uma cratera na rua, e, meu D'us, tem criança brincando nessa água suja! É um absurdo o descaso das autoridades competentes. Glória Maria para o Plantão do Globo Cidade".
Isso fica pra depois. Mas a viagem foi espetacular, já pra deixar claro.
Momento nostalgia hoje. Já cheguei há uma semana, e, coisa engraçada, nessa uma semana estou ouvindo direto na MPB FM, meu Zoloft matutino no único momento Manoel Carlos da minha vida cotidiana (dirigir pela Av. Atlântica pela manhã, sem trânsito, dentro do ar condicionado, ouvindo Bossa Nova a caminho do trabalho...), e ouvi umas 3 ou 4 vezes uma versão de Lígia, do Tom Jobim, gravada pelo Roberto Carlos.
O grande lance é que eu nunca tinha ouvido a música antes, inteira, mas ela foi uma referência pra mim num namoro que eu tive que me tirou do sério (de bom) quando começou e enquanto durou, e seguiu as leis da física no efeito contrário quando terminou. Eu, um cara legal, descolado, que curtia Tahiti 80 décadas antes de Big Day estourar nas FM, que curte cinema de autor, que é órfão do Daft Punk (porque depois de One More Time acho que fiquei órfão), que prefere o Cambodia a Miami... um cara que não é Framengo e nem tem uma nega chamada Teresa, tem pânico de Benjor e foge de todos os carnavais (ok, até eu me achei um chato depois dessa descrição, mas sou legal sim), durante 9 meses tive um namoro que achei que fosse ser o derradeiro, e durante essa gestação pari a Lapa, o samba de raíz, cerveja em boteco (mas boteco de rodoviária, não Bracarenses e etc., que isso eu vou), praia (que devo ter ido literalmente umas 4 ou 5 vezes na vida), só faltou entrar no Amigo Oculto da Dona Zica da Mangueira, isso porque terminamos antes do Natal, porque senão certamente tinha tido ceia com a Velha Guarda.
Enfim, durante esse tempo, dadas as incompatibilidades supracitadas, recebi a carinhosa alcunha de "Lígio", porque não gostava de praia, não gostava de nada, mas que ainda assim "pelos meus lindos olhos castanhos" (isso pra mim é que nem você elogiar um lindo copo de vidro Nadir Figueiredo, ou contemplar a beleza de uma camiseta Hering branca, mas no amor vale tudo) e o que importa é o amor. Achei bárbaro. Durante meses curti o tesão de ser a pessoa completamente fora da realidade, errada e diferente que apesar de tudo causava essa aura de estranheza e isso era muito show.
Até que ouço a música prestando atenção, mesmo sorrindo enquanto cruzo a Atlântica, passando e dando um tchau-tchau pelo posto BR filho da puta que clonou meu cartão de crédito no mês passado, e reparo na letra...
Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema
Não gosto de samba
Não vou a Ipanema
Não gosto de chuva
Nem gosto de sol
E quando eu lhe telefonei
Desliguei, foi engano
O seu nome eu não sei
Esqueci no piano
As bobagens de amor
Que eu iria dizer
Não, Ligia, Ligia
Eu nunca quis tê-la ao meu lado
Num fim de semana
Um chope gelado
Em Copacabana
Andar pela praia até o Leblon
E quando eu me apaixonei
Não passou de ilusão
O seu nome rasguei
Fiz um samba-canção
Das mentiras de amor
Que aprendi com você
Ligia, Ligia
E quando você me envolver
Nos seus braços serenos
Eu vou me render
Mas seus olhos morenos
Me metem mais medo
Que um raio de sol
Ligia, Ligia
Bonito, né? Mas que pessoa visionária... que apologia a mim, meu D'eus, quanto carinho e quanta ternura...
Semana ótima tá sendo a minha, hein. De dar gosto.
:: Inocente 1:32 PM [+] ::
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Fala que eu te escuto...
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