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:: 1/22/2007 ::
Sem título. Sem comentários, sem jantar... totalmente sem sentido...
Hoje vai um sobre as trivialidades da tecnologia moderna num momento em que você não precisa delas, só de um banho quente (que pode ser a gás) e algo na geladeira, e só.
Cheguei em casa, e tô hoje naquele dia véspera de empregada, em que não tem nada na geladeira. Aliás, tem pior que nada, que é acompanhamento e condimento pra nada. Não sei como pode um ser humano, leia-se eu, chegar ao ponto de ter mostarda e não ter um puto de um cremicráquer. Minha coleção dos minitubinhos de molho shoyu do Mirai então é fantástica. Não sei como pode um ser humano, leia-se o cara que empacota o sushi no delivery do Mirai, colocar sempre um tubinho e meio a mais de shoyu em cada pacote, aí vai sobrando tubinho na geladeira, quando chega a dez você se sente um serial killer, com aqueles potinhos na geladeira. Você pede o cardápio de delivery, você pede aquele adesivinho de geladeira neo-cafona, não vem, mas tubinho de shoyu ele soca naquela sacola do delivery como quem tá distribuindo aqueles papéizinhos de COMPRO OURO em plena Nossa Senhora. Se bobear, dá até aquela esfregadinha um no outro do Compro Ouro.
Enfim. Moro a exatamente a mesma distância de 3 Zona Sul's (Zona Suis?). Aliás, acho que todo mundo mora à mesma distância de pelo menos dois ou três Zona Sul's (Zona Suis?). Eles vão te achando pela cidade, quadrangulando seu ser, triangulando sua vida, e quando você menos esperar, você está cercado deles. Se você expandir pra 20 metros a mais a distância, só daqui são cinco Zona Sul's (Zona Suis?). Se eu for no cinema, mais dois deles. Quero ir no Togu, meu japa favorito? Dois de um lado e um do outro. É uma coisa meio número de Kevin Bacon. Acho que aqueles três últimos números do CEP são pra achar o Zona Sul mais perto de você. Aliás, até o slogan é uma praga. "Tudo pra você gostar da gente". E tudo é tudo mesmo. Ele tá em todo lado. É limpinho, é arrumadinho... é carinho também, mas você paga pra não tomar canelada de carrinho de supermercado (porque os do Zona Sul são dinamarqueses, de plástico, anatômicos e batem acima da canela, ninguém sente a pancada, é uma maravilha...
E, dentro os Zona Sul's (Zona Suis?) que tem por perto, é sempre assim - são dois bons, e um xuleba. Tem um meio xexelento, herança de um Mar e Terra antigo, uma papelaria, um troço qualquer que não podia ser mercado, e que vira o low end.
Hoje, por preguiça de atravessar a rua e ir no VIP, fui no xuleba.
Queria comprar queijo, berinjela pra empregada fazer amanhã, uma coca-cola e vi ali, quietinho, um congelado da Sadia de uma linha de soja (não como carne vermelha nem frango - só peixe de carne... então tome soja). Peguei, vai ser o de hoje, botei na cestinha (no xuleba não é aquela high tech ergonômica do Phillipe Starck que tem no VIP, mas também não é aquela que se pegar dá tétano... é uma de "prasto") e fui pro caixa.
A menina me atende com o clássico "tem cartão Zona Sul?", e eu "não". Agora eles poupam tempo, porque antes ainda era "chaveirinho?". Acho que a pessoa entende quando não tem o cartão mas tem o chaveirinho, cuja função não é pendurar suas chaves, mas sim ter o número do cartão, mas enfim, pararam de perguntar. E a menina passa o queijo, passa o pão, passa a Coca, viu que eram duas, digitou 2 e passou só uma, eu penso oba, peguei uma espertinha, tem umas que passam uma, e a outra, e a outra... quando chega a hora do congelado, ela passa e dá "R$ 0,00, produto não cadastrado".
Pronto.
É nessa hora que é o princípio do fim.
"Produto não cadastrado" é o sinal de que a coisa vai feder. A velhota detrás de mim manda um "ih... agora vai..." e já muda de fila. Porque não tem fila de idosos, disso não se pode reclamar - o xuleba é democrático e sem preconceito de sexo, idade ou cruz-credo. Lentamente, as pessoas atrás de mim vão se afastando. Tenho um pressentimento de que realmente vai ser horrível. E a menina do caixa fica sacudindo aquela caixa da Sadia na mão, como se sacudindo ela cadastrasse no sistema (agora que tem isso de "blu-tú", de repente cadastra mesmo). Mas fica sacudindo e não faz nada.
Aí para uma senhora atrás de mim, porque nessa hora a fila estava em outro caixa qualquer. A menina fala "minha senhora, melhor ir aqui do lado, porque aqui vai demorar". Achei que o negócio tava quase resolvido, se sacudisse oito vezes cadastrava sozinho, que nada, ainda tava "começando a demorar". Aí eu volto a cabeça, tirando o foco da velha pra olhar a menina, e levo na cara um grito "DENIIIIIIIIIIISE!", e foi quando eu perdi os sentidos. Quisera...
Vem Deniiiiise. Que pela demora, deve atender a todos os Zona Suis. Deve ser a responsável pelo setor dos produtos esquecidos. Se comida tivesse perninha, de vez em quando você ia ouvir no Zona Sul assim "senhor Dove, por favor senhor Dove, favor comparecer ao Ponto de Encontro. A atendente Deniiiise a espera". Ou então aquelas coisas bárbaras que eu ouço nas Lojas Americanas, que eu entro só pra ouvir: "Denise, B-48, Denise..." eu fico fascinado com isso. Não sei se é Batalha Naval que eles jogam, não sei se é bingo, mas acho ótimo. Lá no trabalho, de vez em quando eu chamo um assim... "Leonardo, F-38, Leonardo..."
Aí veio Denise, levou a caixa "pra ver o cadrasto no estoque", diz a menina. Eu sei que não é isso. Pensei, juro que pensei, mas acho horrível isso, abandonar a soja em combate. Fatalidades de guerra, mas não tava a fim de comer pão com queijo no jantar. Dei um tempo.
Longa pausa.
Gerações se passam. Montes de feno. E nada de Denise.
Agora é que vem o motivo do post. De repente chega Denise, me olha com uma cara puta dentro da roupa, e me fala a pérola:
"Senhor, este produto não é vendido nesta loja".
De tudo o que eu podia esperar ouvir, e acredite, tive muito tempo pra pensar em várias coisas que eu ouviria de Deniiiiiise, essa eu jamais imaginei...
"Como assim, não se vende nessa loja?"
"Aqui não trabalhamos com este congelado."
"Mas eu achei ele ali, junto dos outros! Tem um monte ali! De onde você acha que eu tirei isso?"
"Não sei, senhor, mas aqui não se vende este produto".
"Denise, pelo amor de deus, você acha que eu trouxe isso de casa?"
"Não trabalhamos com este produto, senhor, desculpe..."
Foi a barreira da surrealidade. Paguei o que já tava registrado e que vendia naquela loja, e vim pra casa, com uma sensação que nunca tinha sentido na vida. Me senti um coadjuvante do Tutuca no Zorra Total. Até aquela cara de Marlene quando faz o fuófuófuófuóóóó da piada eu fiz, me pegou totalmente desprevinido...
Pelo menos eu descobri a origem daquele monte de troço que sempre tem no caixa, que não é do cara da frente, que não é teu, e que tá ali na esteira do caixa do Zona Sul. São alimentos que surgem por abiogênese, ou que se teleportaram por ali quando atingiram o nirvana do Hortifruti. Porque não vendemos este produto aqui, senhor.
Adivinha o que eu jantei?
Pão com queijo.
:: Inocente 9:12 PM [+] ::
...
Fala que eu te escuto...
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