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:: 9/30/2006 ::
Baixo Gávea e, quem diria, Lucélia Santos no meu Friday night...
Outro dia numa feira do troca comprei um troço fácil pra chuchu pra carregar, uma coisa que todo mundo deveria comprar quando estivesse a pé no meio da rua: 25 filmes brasileiros em DVD. Não vou entrar muito em detalhe aqui porque não quero receber um selo anti-pirataria aqui, mas digamos que tem DVD naquela caixa de antes do VHS ter sido inventado. Acho que metade dos elencos de todos já morreu. Cheguei amarradão, coloquei o que deve ser o milésimo filme na estante, e fiquei pensando, numa sexta feira resfriado, no chance de sair (embora tenha me roído de raiva de não ter podido ir ver Kseni, da Jocy de Oliveira, com um amigo que tava lá produzindo o making off da ópera) qual deles deveria ver... meio drogado de Trimedal (quem conhece minhas andanças com Rivotril sabe que eu fico meio imprestável sob efeito químico.. quem não conhece a do Rivotril mas me viu no Baixo Santa Alto Gloria sábado passado tomém...) botei o filme e vi.
Baixo Gávea, do Haroldo Marinho Barbosa (que também fez O Vestido, que deu pra Gabriela Duarte o prêmio de melhor atriz em San Sebastian, em 2003, acreditem se quiser), é de 1986. Ou seja, eu devia ser provavelmente um dos vultos nas filmagens, mega dimenor, bicando do chopp de todo mundo aos 16 anos no BG, nem reparei Lucélia e Louise discutindo cabeçamente falando sobre a vida na mesa de trás... se bem que pelo que eu vi o filme é mais no Sagres que na esquina que eu ficava...
É uma encabeçada bem maneira... tudo bem que eu tenho uma certa tendência pra encabeçar geral, então já entrei naquela de que Clara (Lucélia) é na verdade Fernando Pessoa (o filme é sobre uma diretora, a Lucélia, que finalmente saiu da Senzala e resolveu começar a mandar nos outros, que tá ensaiando uma peça sobre os últimos dias do Fernando Pessoa e seus amigos), e a Ana (Louise) é a melhor amiga sapata dela, e também representa o Mário de Sá Carneiro, melhor amigo do Fernando Pessoa, e que na vida da Clara também é o Mário de Sá Carneiro, tirando o Fernando Pessoa das encabeçadas de "nada faz sentido" e "estou navegando sem saber pra onde ir" e "o amor é foda" - mas igualmente decadente, saudosa e meio amarga meio ao leite. Uma parada meio Fernando Pessoa pra todo lado, e acho que todo mundo era um heterônimo dele. Encabecei de novo, né...
Então falemos sobre o lado light do filme. Cara, fazia tempo que eu não via um filme brasileiro, sem ser do Jabor, que é debochado e tem umas tiradas ótimas. Tiradas absolutamente atemporais. Mesmo o filme se passando com duas mulheres, há 20 anos atrás (cacete, eu já tava no Baixo), e tem umas sacadas que você poderia estar usando hoje, que te fazem rir, e que têm tudo a ver com teu último final de semana certamente... aqui vão algumas:
Lucélia, perdão, Clara acorda numa cama estranha, assim abre o filme. Acorda naquela onda onde estou, quem sou eu, é bonito aqui... Aí vem um cara peladão do banheiro, impressionante como todo mundo com quem você toma um porre e vai pra cama sempre acorda melhor que você. Tirada atemporal 1 - você sempre bebeu mais ou pior do que com quem você trepa. O cara lembra da história toda, dá aquela agonia do que fiz, o que não fiz, a pergunta "como vim parar aqui" chega a ser ridícula... hoje eu viro e falo pra alguém "já despertei aqui" e todo mundo acha graça, mas na hora é de arrancar os olhos e pisar em cima...
Ana pra Clara: "Você acorda nua, na cama de um cafajeste paulista, e ACHA que ele te comeu? essa é ótima..." Perdão pela referência geográfica do paulista, geherter Marx, mas é a cereja desse sundae...
Cabecice do Pessoa, soco no estômago: "Nôs nos sentimos como barcos, e o objetivo do barco nos parece ser navegar. O objetivo do barco não é navegar, é chegar em algum porto. Nós seguimos o erro dos argonautas, navegando sem saber onde chegar... navegar é preciso, viver não é preciso..."
"Eu já sei por que bebi tanto aquela noite... porque eu tava carente... to carente... carente de amor..." Ah, jura Lucélia? E depois o papo vem com a Lucelia dando uma de puritana pra Louise, que é uma pegadora, e que responde com uma que eu já incorporei ao meu vocabulário: "Alto lá, quem disse que eu me deito com qualquer pessoa sem amor? Eu amo todo mundo..."
Lucélia Poliana mais uma vez, ensaiando pra falar com um date: "Olha só, eu tô querendo um homem pra casar, tá, pra ter filhos, entende? Então eu tô saindo com você pra fazer um teste... pra conversar com você, pra trepar com você, pra ver se você funciona, sabe? Agora eu tô ficando angustiada porque eu tô começando a achar que eu tenho mão podre pra homem..." Já é hilária assim. Aí você vê o cara, claro que não vai dar certo. É o José Wilker. Corpo e cabelo de 20 anos atrás, mas a cara botocada é a mesma. Isso não vai acabar bem... o cara manda um "bora daqui que tá muito cheio" no meio do vernissage... "Rapaz educado, amante das artes sem ser artista..." acorda, Lucélia... ficou burra na senzala? Desfecho da noite: "Vem cá, você é sempre tão delicado assim? Ou foi só comigo? Isso foi uma curra!" e o outro, rodando o gelo do uísque com o dedo "é, eu sou meio complicado mesmo..." O cara era terrorista, fazia bombas... "ah, eu acho que vou pegar um taxi e voltar pra casa, tá? Esse revólver na tua cintura, depois aquela coisa romântica de você me currar chamando de prostituta... e agora bomba? Ah, não. Uma bomba já é demais pra mim, viu..." Amei essa. Aprenderam? O lance é bomba. Se tiver bomba, não vai dar certo. Todo o resto pode...
E a saideira: todo mundo depois de uma noite no Baixo, "Porra, todo mundo se arranja, menos eu... eu acho que nasci marcada, sabe, nasci com esse estigma... " e a pérola da Louise Cardoso, ao melhor estilo Dona Jura "Eu também, meu bem... já perdi a garra e tô segurando no dente.." É brinquedo, não?
"Essa menina depressiva tá lá no banheiro há horas já, hein...", "Ih, meu deus, deixei uma gilete na pia!". Ótimo...
No dia seguinte da suicida, entra um amigo delas em casa, levou porrada na rua e tá com o nariz todo estropiado, e a Louise Cardoso "Ah, isso aqui tá ficando interessante, todo dia rola sangue nessa casa..." Mais ótimo ainda...
Pra encerrar, a minha favorita. Louise Cardoso enchendo a cara no Baixo: "Hoje é o meu dia... tem um bicho agarrado aqui no meu peito que só desgruda com álcool..."
Quem quiser, um dia conto as cabecices do filme. Com direito a Opiário, do Pessoa, e tudo. Gostei. Meio down to love, mas muito bom. Com um trimedal então, fui ao êxtase.
:: Inocente 11:52 AM [+] ::
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Fala que eu te escuto...
:: 9/13/2006 ::
Fui etiquetado...
Nem sabia que tava rolando essa nova onda, uma coisa muito Manhattan esse lance de "you're tagged!". Pois é. Amigo meu, o Bernardo, me etiquetou. A coisa funciona da seguinte forma - a pessoa etiquetada parece que tem que contar seis coisas sobre si mesma (adoro isso de si mesmo... já me lembra aquela clássica de "quando eu me dei por si" e suas corruptelas "se dei por si", "se dei por sim", e o melhor que é "voltar a sim"...), e no maior esquema praga de corrente etiquetar seis pessoas. Como a etiquetagem funciona na base do link de blog, vou perguntar pro carimbador maluco que me carimbou como faço se eu por política marco poucos blogs de pessoas que eu acho que não etiquetaria. De repente etiqueto alguns por email e ponho eu mesmo as respostas aqui...
(vou ser o espírito de porco que quebra a corrente, mas não vou ser atropelado nem vai cair um avião na minha cabeça, como caiu na de Kathleen O'Durphy, de Columbus, Ohio, que ignorou esta mensagem e teve dezoito filhos xifópagos e morreu virada do avesso no parto... porque eu respondi!!!)
Vamos lá. Seis coisas sobre mim...
1. Já fiz treinamento militar de campo na Guatemala, e dei aula de matemática na Victoria Terminus, em Mumbai, na Índia.
2. Fico trêbado com dois chopps, mas aguento até dez vodkas sem embargar a voz.
3. Tem uma música B-sides de um grupo famoso dos anos 80, que cantava músicas sobre batatas fritas e que gemia, gemia, feita pra mim
4. Detesto que me cutuquem ou que encostem em mim enquanto conversam comigo. Pode ser o assunto mais interessante do mundo, perde o dedo na terceira ou meu telefone misteriosamente toca sem ninguém ter ouvido, pego meu banquinho e saio de fininho.
5. Amo na mesma intensidade Daft Punkt e "Sou Rebelde" da Lílian, Manuel de Oliveira e Lucille Ball
6. Sim, é verdade... SOU ARGENTINO! Exército de ocupação, primeira brigada - sem sotaque, não jogo futebol e não tenho cabelo firulin atrás, e não faço malabares nos sinais... estou a paisana, e quando você menos perceber, te ocupamos, pelotudo!!!!
Vou ver agora com o carimbador maluco como faço pra passar isso adiante se não sei seis blogs de cabeça.
PS: Essa noite sonhei com ringtones e celulares... e eles não interagem no sonho... Sonho chaaaaaaaato...
:: Inocente 10:17 PM [+] ::
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Fala que eu te escuto...
:: 9/11/2006 ::
O jongo da meia noite doida...
Já recuperado da ressaca moral e da dor de cotovelo, agora dei pra receber visitas no meu sono. E muito embora "dar pra receber visitas no sono" tenha um péssimo duplo sentido, o que tá acontecendo é algo mais surreal ainda. Antes eu estivesse recebendo visitas como o Fantasma do Natal Passado, que vem pra mostrar todas as criancinhas que eu maltratei, os presentes que eu chutei em árvore de natal de shopping center, e as pessoas que eu despejei de casa numa fria noite de Natal onde nevava... ou mesmo o velho fantasma de Zebedias Esprunge, que leva um sonho todo tossindo, mas consegue passar a localização secreta do mapa da mina de ouro perdida há séculos... ou mesmo o fantasma-vivente do Manoel Carlos (que um dia ainda vai ser o mártir da bala-perdida do Leblon, disparada por uma trombadinha chamada Helena) dizendo se o Bira vai ou não vai pegar a Marta de jeito...
Não. Recebi a visita do fantasma da Clara Nunes essa noite. Sério.
Geralmente nem me lembro dos sonhos. Nem sei se sonho - devo sonhar, ouvi uma vez que só quem não sonha é pedra... é pedra, não é gente ainda... então eu devo sonhar. Mas não lembro de nada, já tive uns pesadelos meio doidos, daqueles de acordar cansado, de se sentir no limiar do sono com a vigília, que você sabe que o monstro andando perto de você é na verdade o sinteco rachando e chiando na sala, e nem se estressa, vem o bicho em cima de você e você pensa "ah, é sonho". Tomara que um dia eu não acorde em Nárnia ou uma coisa dessas, vou ser o churrasquinho de gente mais cético que o dragão já comeu.
Mas dessa vez sonhei. Meti o iPod no ouvido, fui ouvindo, a última coisa que ouvi deve ter sido Clara Nunes, porque de repente ouço uma trilha de fundo para uma paisagem meio dadá, meio badauê, ilê ayiê, malê debalê, otum obá... De repente aparece um monte de gente no sonho, uma coisa meio Santo Daime (outro dia eu prometo que conto o dia em que fui no Santo Daime e vi a Lucélia Santos fazendo o maior sucesso lá.. se vocês acham que ela de Escrava Isaura era de matar, é porque vocês não viram ela pulando barbantinho e vela no Santo Daime). Mas as pessoas do Santo Daime eram pessoas que eu conhecia: gente que estudou comigo na faculdade, gente que trabalhou comigo, gente famosa mesmo. Uma coisa muito doida. Parecia uma versão insana da abertura do Estúpido Cupido, ou então da abertura daquela novela das oito que tinha a Nazaré Tedesco, com a musica chatinha da Maria Rita "e as pesssoooooas...." Eu ali no meio com aquela cara de "onde estou, quem sou eu, é bonito aqui..." e continuava a onda ojulatê, catembê, babaobá.
Enfim. Tive uma visão da Macy Gray ali no meio. E você vê que sonho é coisa doida mesmo, me lembrei do TIM Festival que eu fui há uns anos, e me lembrei no sono que tinha que ver quando começava a vender ingresso. Se um dia no meio do sono eu puxar um celular pra sincronizar email, quero que a Samara me jogue no poço. Pô, essa vida tá me destruindo tudo, até em sonho eu tô ficando assim? Aí tomaticamente fui levado a uma coisa meio festival de música, e vi um monte de amigos meus que eu não via. Tudo bem que tinha encontrado uma amiga de faculdade e colégio na rua outro dia, em Ipanema (ah, essa coisa qualquer rua de Ipanema, a leste o Arpoador, ao norte o Corcovado, a oeste o pôr-do-sol, nem tudo é tanto pra ser poema, ê Clara que a tristeza é menos triste em qualquer canto de Ipanema...), engraçado como a gente perde o contato com as pessoas, não é por querer, mas a vida vai levando a gente pra tudo que é canto, e quando a gente vê, a gente se afasta, até acha que por causa dos momentos da vida da gente, mas eu acho mesmo que era por causa da forma que a gente era. Acho que num momento desses de "ah, é sonho" eu meio que pensei que vai ser legal fazer o tal jantar que combinei numa esquina de Ipanema, tão fadado a virar um "depois a gente se vê", "a gente vai se falando", "liga aí, some não!", e aproveitar. Afinal de contas, voltei pro Rio pra criar raízes, vou tentar isso.
Dali acho que o sonho ficou menos nobre e mais doidão. Eu apareci no meio de um pântano, já não via Clara mais comigo, parecia mais um daqueles filmes que um zumbi te toca, tinha uma coisa meio "cuidado com o monstro", meio "a Cuca te pega, te pega daqui, te pega de lá", e parece que quem o monstro tocava virava monstro, ou apodrecia... sei que o monstro me tocou, tocou um monte de amigos meu, de repente eu tava virando um troço meio que nem xaxim podre, que vai se despedaçando na mão... e quando eu terminei de despedaçar, acordei... xôxo, né?
Mas aí o galo cantou às quatro horas da manhã, o céu azulou na linha do mar, Clara foi-se embora desse mundo de ilusão, e quem me viu sorrir não há de me ver chorar.
O que importa é que acorde, na hora só consegui me lembrar da Macy Gray do sonho, entrei na internet e fui ver se tinha começado a vender os ingressos do TIM Festival. Comprei meus ingressos pro Daft Punk e pro Yeah Yeah Yeahs e tá bom já. Mandei uma mensagem pra Gabi pra combinar do jantar e falei pra ela não virar xaxim, e tá bom já. E resolvi de verdade mesmo fazer umas concentrações antes de dormir, quem sabe não lanço o talk show da quinta dimensão.
Valeu, Clara! Agora essa do monstro, hein... francamente... dormir com Clara e acordar xaxim foi foda.
:: Inocente 11:08 PM [+] ::
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Fala que eu te escuto...
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