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:: 8/19/2006 ::
Amor em quatro tempos: presente, futuro, futuro do pretérito e pretérito imperfeito...
Engraçado como eu sempre preciso de algum evento externo, alguma coisa diferente acontecendo na minha vida pra tomar a caneta na mão e voltar a escrever. É sair de férias, é tomar um pifão, sei lá, simplesmente não consigo ser mais regular aqui. Mais uma vez vou tentar... mas como das outras vezes, realmente um evento de força maior me fez voltar a escrever. Há algumas semanas terminei mais uma daquelas relações que você acha que vão ser A relação, a derradeira, aquela que você sempre esperou, aquela que quando você compara com as outras, putz, nem faz cosquinha... aquela que, igual às outras, acabou.
Claro que tô numa fossinha sim. Fossinha que de vez em quando fica fossona, depois volta pra fossinha, acho que esse é o tempo das coisas acontecerem... mas engraçado como só quem tá numa dessas é que sabe como o universo conspira pra te deixar com o pé na merda, todas as pequenas coisas do mundo te lembram do que você tá passando, tudo parece que está acontecendo só porque você vai entender aquela mensagem de uma forma que ninguém mais no mundo vai... Se eu encontro Kardek, dou três tiros nele, mas pra quem tá na fossa, o acaso não existe.
É zapear na Net e cair bem na frase do Pequeno Dicionário Amoroso que você mais gostou do filme, e sentir o fio de navalha que ela tem pra você neste momento ("quando você sai de uma relação, você sai com 50%... aliás, menos. 49%..."). Zuní Barthes pela janela. É ligar o rádio de manhã cedo pra te ajudar a tomar-banho-fazer-barba-pentear-se-vestir-tomar-café-arrumar-as-coisas em cinco minutos, e ouvir a Gal Costa cantando tolices, que pudemos ser felizes mas tudo que eu sei não dá pra disfarçar, dessa vez doeu demais, o amanhã será jamais, e eu rogo uma praga nessa mulher que dessa vez me fez entender uma parte da música que eu sempre achei meio coxa ("sinto quando alguém te interessa mesmo quando finges que não vês, se desapareces numa festa, eu já sei, não quero te ouvir falar do tempo se eu só pergunto onde vais, mas se quiser saber se voltas logo, you don't know, nada mais")... Pra terminar, pegar o carro na garagem, botar na MPB FM companheira minha de engarrafamento e ter que ouvir a Ana Carolina dizer que o amor chegou ao fim, esqueça de me perguntar se ainda há amor em mim... e pra sacanear, vem depois o Zeca Baleiro cantando Telegrama que tanto já me fez chegar sorrindo ao trabalho. Juro que esta foi a trilha sonora da minha quarta feira indo pro trabalho.
E hoje fui ver "Amor em Cinco Tempos". Admito que eu tenho um certo lelé (implicância inexplicável) com o François Ozon. Achei 8 Mulheres meio chatonildo, achei Swimming Pool um clichêzão do começo ao fim, salva só pela Charlotte Rampling. Também acho a forma começa-do-fim-e-vem-vindo-pro-começo-e-só-então-você-diz-AAAAH!!! muito perigosa de se usar, absurdamente magistral no Irreversível do Gaspar Noe, bem interessante no Amnesia e até mesmo no Lost (sim, eu sou viciado em Lost! E também em iogurte de cenoura, laranja e mel). Mas dá um nhém (sentiu que pra descrever essa sensação meio não sei só com palavras igualmente não-sei). Lembremos ainda que esta onda de começar do fim vem desde Besame Mucho, ou seja, brazuquissima e de 1987... Enfim, vamos né.
Quero muito crer que vi um bom filme, gostei muito mesmo. Muita sacação. Ou então eu é que tô suscetível, na verdade as músicas que eu ouvi no rádio na quarta feira também não são nada sobre isso, e eu que tô insano aqui. Mas o filme é muito, muito bem pensado. Fui ver com uma amiga recém casada, e depois fomos tomar um café e foi antropologicamente interessantíssimo conversar com ela sobre o filme, ela vendo passarinhos azuis e coelhinhos na lua, e eu sendo alvo de todos os passarinhos cagantes do mundo.
Não vou contar o filme não. Fica este post então pra mim (e olha que eu já perdi um amigo numa conversa que parecia ser inofensiva sobre o valor ou não de eu escrever um troço que é público mas que é um exercício meu de síntese e que é pra mim mesmo... vou me arriscar de novo) e por ventura pra quem tenha visto o filme. Achei ótimo ver como a mulher sofria na mão de um marido insensível, e no meio da história perceber que possivelmente era o contrário, e o clima de descuido um com o outro, ou agressão mesmo, veio justamente desta condição inicial. Achei inteligentíssimo ver como os diálogos dele na primeira cena, do divórcio, na cama do hotel, eram derivações da última cena, no hotel na Itália, só que com outras conotações ("você está vendo alguém?", a descrição da orgia, o "você quer ir? Só se você for"), muito muito inteligente. A mudança da relação dos pais dela entre a terceira e a quarta cena, do ódio ao amor, enquanto eles tinham passado por isso entre a primeira e a segunda...
E o que eu mais gostei. Eu e minha amiga tomando café. Ela comentando que teria achado melhor a história se tivesse sido contada em ordem direta (porque não necessariamente um roteiro bem costurado às avessas ajuda em como o filme bate na gente), e eu justamente dizendo pra ela que a grande sacada pra mim tinha sido começar num divórcio e construir pra trás, foi isso que deu pra sustentar a força de cenas como o abandono dele na maternidade, destratando a mulher que tinha acabado de ter o filho (que algumas cenas depois você vê que de repente não era dele, e o cara de pulha vai a pobre), até mesmo ele dormindo com o filho abraçado, filho que ele enjeitou. E na última cena, o relacionamento xoxo dele com a namorada antiga, que vai pro saco quando ele conhece a mulher nas férias, e uma nova história de amor e magia da paixão justificam ele largar o namoro anterior. Resumo da ópera, vai mais ou menos que nem o Irreversível: o tempo destrói tudo. A inevitabilidade das relações amorosas, que terminam assim. Terminam. E sempre assim. Talvez pra deixar que algo possa ser mágico com outra pessoa pra mover esse ciclo da paixão. Agora é engraçado a gente sempre ver a morte de um amor virando o começo de outro sob a perspectiva do novo amor. É revigorante. É inspirador. Dá esperança. Afinal de contas, todo mundo quer ter um alguém no alto da torre ou num cavalo branco que sacuda a sua vida. Agora ver essa história sob a perspectiva do velho amor, do ex-amor, não é pra todo mundo, ou não é pra qualquer hora. Certamente não para uma recém casada. Certamente sim para mim. Acho que pra ela o todo não fez sentido, porque um casal que se conhece magicamente e termina assim não tem pra ela relevância nessa hora de uma semana aprés-lua de mel. Mas certamente pra mim o meio fez muito mais sentido do que o todo. Os meios.
Mas de repente isso é dor de cotovelo. Sim, homem tem dor de cotovelo. Até mesmo porque ontem até uma dessas lourinhas de Hollywood num filme bundérrimo me deu outra lição de moral, num diálogo desses que no filme ninguém nem repara, sai uma de "terminar um relacionamento tem que ser bruto, porque aí dói mas depois passa. Terminar numa boa, isso é que não funciona, porque fica uma coisa interminável dentro de você que a qualquer dia pode se manifestar". É... vai tomar no c*, Bozo... Hollywood também tem sua profundidade...
Acho que vou apagar este post. Ficou muito cinema de autor. Truffaut pode usar o Antoine Doinel pra fazer cinema de autor e todo mundo acha lindo (eu mesmo acho, embora nouvelle vague não seja a minha praia), mas pra isso ainda faltam muito...
:: Inocente 9:51 PM [+] ::
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Fala que eu te escuto...
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